quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Diálogos - Parte 2

Ouvindo a pergunta, ele repara que a música já acabou e só restava o som da agulha riscando o vinil abandonado. “Isso?”, ele começou a dizer, andando em direção a vitrola para arrumar as coisas. “A Love Supreme, do John Coltrane. Gostou?”
“Achei linda”, disse andando atrás dele. “É muito antiga?”
“Década de 50, não lembro o ano certoa”. Tirou o disco da vitrola e o guardou de volta em sua capa, entregando-o para Alice, caso ela quisesse dar uma olhada. “Pode me emprestar esse da Janis? Vou deixar ele tocando.”
“Claro”, entregando o disco da Janis enquanto revirava o outro que ele tinha lhe dado. “Me parece que essa música tem uma história…”


“Qual? A do Coltrane?”
“É!”
“Sim, começou como um poema. Coltrane escreveu um poema em homenagem a Deus, mas, ao invés de recitar os versos, tocou cada sílaba poética como uma nota no saxofone, isso, como sempre, cercado de improvisos e outras invenções que ele costumava fazer.”
“Que interessante! Você gosta disso? Quero dizer, de Deus e dessas coisas todas?”
“Na verdade não. Mas, se existe alguma coisa que possa testemunhar a favor de um deus, é essa música. Essa música e Bach. E você? ‘Gosta dessas coisas’?” perguntou tentando imitar o tom da pergunta de Alice.
Dando risadas, Alice senta num sofázinho poído ali na sala. “Então, tenho minhas dúvidas sobre isso, não sei se acredito em Deus, necessariamente; em religião tenho certeza que minhas crenças não estão, mas acho que existe uma energia cósmica que rege o mundo, algo assim. Entende?”
“Entendo. Faz sentido, mas depende do quanto de sentido você vê no mundo, né?”
“Pode ser. Qual seu ponto de vista sobre isso?”
“Que o ser humano só vê uma ordem regendo o universo porque ele está acostumado com o jeito que as coisas são. Mas isso tudo é só o resultado de bilhares de anos de caos. Se tivesse terminado de modo que resultasse em um mundo subaquático, sem o surgimento dos seres humanos, seria isso, entende? Ninguém questionaria nada.”
“Depende. Vai que algum ser subaquático seria dotado de pensamento? Eu continuo acreditando que deve ter algo por trás dos nossos pensamentos, da nossa vida, porque não é possível que possamos ser dotados de uma super inteligência e, só nós no mundo. É estranho. Claro que nem todos são dotados dessa inteligência, mas você entendeu o que eu quis dizer…”
“Sim, e o que você diz é perfeitamente racional, mas mesmo que houvesse uma variação marinha do humano, a impressão que ele teria da realidade seria a mesma que a nossa, no entanto os resultados seriam totalmente diferentes. O que eu digo é que existe uma aleatoriedade para os acontecimentos, o caos, mas nós ignoramos porque tudo parece estar em ordem e fazer sentido. Só que mesmo a inteligência que você mencionou é um sinal disso. Uns a tem, outros não. Não é uma questão de genética, nem poder aquisitivo, nem nada lógico, embora existam fatores que ajudem e prejudiquem, de qualquer forma é o acaso.”
“A sua lógica faz todo sentido. É perfeitamente aplicável com a teoria do caos, que aprendemos lá no ensino médio, ou fundamental, tanto faz. Mas se você parar pra pensar em tudo o que aconteceu com a humanidade até agora, você tem que tentar buscar um sentido pra tudo isso, mesmo que não tenha. Na verdade, é por isso que existem tantas teorias, e tantas religiões, e tantos deuses.”
“É o medo. Eu mesmo não gosto da ideia de que nada faz sentido e nós somos produtos do acaso, navegando em direção ao esquecimento. Mas pensar o contrário me parece prepotente. ‘Eu existo, portanto deve haver um motivo.’ Só que, se não houver um motivo, pra que serve tudo isso, não é? Eu entendo o que você diz.”
“Exatamente. O medo é o dono de todas as teorias. Além do mais, o medo de não haver um motivo para a nossa existência se confunde com o medo da morte, pois se não há um motivo para existirmos, porque haverá motivo para vivermos após morrermos? Assusta pensar que nós simplesmente deixaremos de existir.”
“Você já tentou conceber o nada mentalmente? Eu já. É meio angustiante, mas, se você for parar pra pensar com total honestidade, é como a sua vida um ano antes do seu nascimento. Já pensou nisso?”
“Nunca pensei, mas agora que você falou… é um pouco depressivo. É totalmente depressivo.” Então ela se perde em pensamentos, assustada com o fato de desvendar algo que ela nunca tinha pensado, mas que fazia todo o sentido. Pedro percebeu o dano causado e foi se sentar ao lado dela no sofá, não que ele soubesse como melhorar a situação, só se sentia culpado.
“É aterrorizante, eu sei. Eu fui religioso por boa parte da minha vida por causa desse pensamento. Eu devia ter uns 10, 11 anos na época. Fui pensar nisso, por algum motivo e tive que me entregar para qualquer religião que pudesse me tirar daquilo. Mas foi uma fuga.”
“Eu não sei mais o que eu faço. O nada é horrível.” Ela olhou para ele com os olhos saltados e a expressão aterrorizada.
“Mas a noção do nada não te faz apreciar o ‘real’ um pouco mais? Pensa nisso. Essa livraria vai sobreviver décadas, talvez centenários, muito mais que nós dois. Então porque não fazer uso dela enquanto dá. Parece simplório, mas, se o nada for fato, e eu não sei se o é, porque não aproveitar o que nós temos.”
“Claro,” Alice sorriu aliviada, com um novo brilho nos olhos. “Nós podemos nos eternizar com o legado que deixamos na Terra. Não precisamos virar o nada, não precisamos vir do nada também. Nós podemos aprender com nossos antepassados através da história, dos livros, dos objetos, e nós podemos deixar pra trás nossa história, algo para que nossa existência não seja transformada em mero nada. Não é uma questão da existência ou não de um Deus ou de uma entidade cósmica, mas uma questão do que nós fazemos para o nada não existir.”
“Faz sentido. E, na falta de opção, essa sensação de estar cercado pelo nada e de que tudo pode acabar a qualquer instante, até que é bem excitante. Mas isso aqui é uma livraria, que tal checarmos os livros?”

Continua...

Então, esse conto é uma continuação da Parte 1, foi escrito em 4 mãos com o Raphael Dias, do blog Delirium Scribens, e continuará sendo publicado em partes. Gostou? Tem algo para acrescentar nessa discussão? Comente!

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