quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Diálogos - Parte Final

Leia a Parte 1 e a Parte 2.
 
“Claro!”, novamente animada, levantou-se logo do sofá e pôs-se a andar porta afora, ansiosa por descobrir os segredos daquele lugar, com Pedro a seguindo, tentando acompanhar o ritmo. “Sempre fachei que os livros fossem um pedaço da alma de quem os escreveu”, continuou Alice, andando por entre as prateleiras, com um vinco entre as sobrancelhas, lendo as lombadas dos livros antigos e surrados.
“Os bons são isso mesmo”, Pedro respondeu, também passando os olhos pelos títulos. “Têm que ser, é uma questão de integridade artística.” Então ele notou um de seus favoritos em meio aquela multidão de papel, O Sol Também Se Levanta, tirou-o de seu lugar de descanso e perguntou se Alice já o tinha lido.
Curiosa, Alice respondeu que nunca tinha lido ou ouvido falar desse livro. “Sobre o que fala?”

“Basicamente o que você estava falando sobre alma. É uma história quase autobiográfica, mas os nomes das pessoas foram trocados. Quase nada acontece nesse livro, se visto pelos padrões normais de narrativa, mas é um relato tão sincero da vida do autor que é impossível não sentir a história com ele. Todos os livros do Ernest Hemingway são assim, mas esse foi o que mais me pegou. O autor prezava pelos atos heróicos, sabe? Mas, durante a primeira guerra, ele sofreu um ferimento que o deixou impotente. Então ele escreve sobre a vida dele como jornalista pobre na Paris da década de vinte. Um dos melhores que eu já li.”
“Interessante, já ouvi falar muito de Ernest Hemingway, mas nunca me interessei de verdade. Não me interesso muito por autores, o que é estranho pra uma pessoa que lê vorazmente.” Pegou delicadamente o livro da mão de Pedro. “Vou ler! Só não sei como vou pagar por esse livro…”, falando isso, olhou para os lados, e não via ninguém, não se ouvia nenhum som ainda.
“Eu não me preocuparia tanto com o pagamento agora. O que eu achei meio contraditório foi você, mesmo sem se interessar por autores, entender que o livro é como se fosse a alma de quem o escreve. Explica melhor isso.”
“Não parei para pensar sobre isso. Só acho que não me importa se esse livro é desse ou daquele autor, desde que ele consiga colocar um pedaço da alma dele naqueles papéis. Um autor que escreveu um livro muito bom pode escrever um muito ruim também. Acho que é mais ou menos isso.”
“Mas não tem vezes que você tem vontade de conhecer mais um outro pedaço da alma de um autor específico. Seguindo Hemingway como exemplo, em O Sol Também Se Levanta ele mostra um lado jovem, derrotado, mas com um amor insistente pela vida. Já em O Velho e o Mar, seu último, ele já mostra sinais de cansaço e do quando ele não vê valor na vida, se não por meio das proezas físicas e das batalhas contra a natureza. Tanto que, não muito tempo depois, visivelmente fraco e incapaz de seguir com suas rotinas de pescaria e caça, ele decidiu se matar. A depressão que o acompanhou pela vida toda também ajudou nessa decisão, mas, se não fosse a morte se aproximando, talvez ele não tivesse se suicidado. O que eu quis dizer, é que uma alma é muito vasta, e algumas poucas valem ser exploradas.”
“Entendo. Sabe, senti isso por uma escritora, na verdade, Virginia Woolf. Li Mrs. Dalloway, faz pouco mais de um mês, e fiquei intrigada com o quão profunda ela é, e como ela consegue passar essa profundidade através das palavras. Nunca li algo que me deixasse tão intrigada quanto aquele livro. Por isso, andei comprando mais livros dela… Mas é a única autora que sinto vontade de conhecer. Talvez pelo fato de ter me achado um pouco parecida com ela, os questionamentos, a tentativa de se conectar com o mundo, de preencher algo.”
“Sim, identificação é uma coisa necessária. Não me vejo tão parecido com o Hemingway. Não caço, não pesco e não gosto de touradas, mas existe uma identificação literária, um amor pelas coisas simples e terrenas, a bebida, as mulheres, o desconhecido, mas não vai muito além disso.”
“Não é pelo fato de você ter os mesmos gostos, mas o fato de ele conseguir completar um pensamento seu, como se ele completasse algo que faltava para você. Acho que a Virginia faz isso comigo, como Hemingway faz com você.”
“Talvez seja isso que te falte na leitura, mais autores que te façam se sentir assim.”
“Pode ser”, recomeçando a andar pela livraria. “Já decidiu o que vai levar?”, ela perguntou após uns minutos de silêncio e análise das prateleiras.
“Eu não acho que eu vou levar nada. A impressão que eu tive desse lugar, e talvez você discorde, é que me pareceu com um cemitério, mas não exatamente macabro, apenas um lugar para as almas dos artistas de verdade descansarem e serem lembradas. Acho que, se existe algo de sagrado nesse mundo, é essa livraria.”
“Você tem razão”, parando para analisar, Alice achou que podia ouvir sussurros naqueles corredores vazios. Olhou para o livro em sua mão, e achou que ele não sobreviveria ao mundo lá fora. Colocando-o de volta na estante, perguntando se um dia voltaria a ver esse lugar.
“Acho que sim, por que não? Sempre que quisermos ler alguma coisa, conhecer novidades do passado, teremos esse lugar, vazio e particular para quem quiser buscá-lo.”
“Espero que sim, há uma solidão boa de sentir por aqui.”
“Então, são quase uma da tarde, tá com fome? Talvez a gente possa almoçar em algum lugar. Eu conheci bastante da sua visão de universo, mas nada sobre você, que tal?”

Então, este foi o final do conto Diálogos, escrito por mim, Luana Kraemer, e pelo Raphael Dias do blog Delirium Scribens. Gostou? Tem algo a acrescentar nesse diálogo? Fique livre para expor sua opinião, e aproveite e visite o blog do Raphael.

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