sábado, 6 de junho de 2015

Solidão: um desabafo.


Que angustia estar sozinho na tristeza,
E na prece! Que angustia estar sozinho
Imensamente, na inocência! Acesa
A noite, em brancas trevas o caminho
Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!
Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável
Torre; que angustia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?
                     Soneto de Londres, de Vinicius de Moraes.

     A solidão sempre foi minha amiga. Andamos de mãos dadas desde que descobri que não era muito boa em socializar. Fui uma criança calma, não dei muito trabalho para meus pais até a adolescência, e mesmo nessa época fui o menor dos problemas. Sou filha única, e às vezes culpo meus pais por viver nessa bolha, mas não é verdade que eles sejam culpados por alguma coisa, eu que cavei minha própria caverna onde só cabem eu e minha solidão.
     Nunca tive muitos amigos, nem grupos de amigos nem nada do tipo, o mais perto que tive de encontrar um grupo foi no ensino médio mas, de novo, mea culpa, perdi-os. Quando criança tive uma ou duas melhores amigas, ainda lembro delas até hoje, acompanho-as nas redes sociais mas nunca irei convida-las para algo, não teria o que falar. Quando pré-adolescente, tive algumas más influências, deixei minha melhor amiga um pouco de lado, e me ferrei. Fiquei aleatória na escola desde então, até que meus pais resolveram se mudar.
     Nova cidade, nova escola. Simplesmente não me encaixei. No começo até que foi bem, achei que seria um ano bom e conseguiria enfim sair desse marasmo solitário que me acompanhava sempre. Mas não durou muito tempo e perdi as amizades que tinha conseguido, trocando pelas más amizades, aquelas que sabemos não vão durar nada. E até hoje lembro daqueles que perdi.
     Nesse tempo, eu não me encaixava em nenhum grupo. Era branca demais, tímida demais, esquisita demais, magra demais, pobre demais, rica demais. Sempre tinha algo em mim que me colocava a parte. Eu não sei se eram coisas da minha cabeça ou se realmente os outros assim pensavam. Mas o que importa é que eu desistia de tentar ser alguém legal e voltava para meu quarto, para os meus filmes e seriados e livros. Eles sempre me trataram melhor.
     Perdi a conta de quantas sextas-feiras chegavam e domingos iam e eu ainda estava trancada no quarto sem nenhuma expectativa de sair de lá. Quando criança eu tinha a televisão, quando pré-adolescente o computador (e o Orkut, e os Fakes do Orkut, e as Comunidades do Orkut), quando adolescente ainda o computador (e o Facebook e o Twitter e o Tumblr e o Blogger) e agora, jovem/adulta ainda o computador (Netflix, PopcornTime, Megafilmes), com a soma do smartphone (e o Instagram e o Snapchat e o WhatsApp).
      No ensino médio eu ainda estava trancada no quarto, mas a ansiedade por sair, por descobrir novas experiências me fez sair um pouco, foi ali que tive uma melhor amiga e um grupo de amigas que se formou com o tempo. Saíamos de quando em quando, até que comecei a namorar. Minhas amigas não gostavam dele, e nem ele delas, e como eu era uma tola apaixonada, disse adeus as minhas amigas assim que o terceiro ano terminou.
      Fui para a faculdade em outra cidade, passei a morar sozinha, fiz novas amigas, comecei a beber, tive muitas tretas no namoro e mesmo assim ele durou mais dois anos. Achei que seria diferente dessa vez, mas a única coisa que mudou foi que ao invés de ficar trancada no quarto, eu tinha um apartamento só para mim. Com um sofá confortável, tv a cabo, uma cozinha perto do sofá e além do mais, completamente sozinha, de manhã, de tarde de noite. Preferia ficar em casa vendo meus seriados e lendo um bom livro do qualquer outra coisa. E essa é a história de como, na faculdade, deixei de sair e fazer amigos para ficar trancada em casa.
      Até que eu passei no intercâmbio. Foi então que pensei, é a hora de me libertar, vou ser uma pessoa totalmente diferente, vou sair sempre, ir para inúmeras festas, fazer milhões de amigos, viajar horrores, aprender a dançar e ser quem eu sempre quis ser. Mas minha mãe já sabia o que ia acontecer…
       Ficar no quarto é sempre mais fácil do que enfrentar a vida lá fora, sonhar ao invés de fazer é confortável, mas com o tempo tudo isso se torna um peso. A vontade de viver de verdade vem. Eu olho para trás agora e faria tudo diferente: sairia, faria amigos para lembrar para todo o sempre, aprenderia outras línguas, afinal, moro numa cidade com espanhóis, ingleses, irlandeses, italianos e todas as nacionalidades possíveis. Viajaria muito, passaria o meu tempo todo viajando, fotografaria mais, filmaria mais, iria em muitas festas, conheceria lugares, pessoas, teria lembranças para levar comigo.  

        Eu sempre fui solitária, mas nunca quis a solidão. Por algum motivo, desde pequena escolhi me esconder, me proteger do mundo mesmo querendo desbravá-lo, e agora, nos meus vinte anos, essa escolha me atinge, e eu ainda assim continuo a fazer tudo igual. 

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